Vamos tirar o elefante da sala logo no primeiro parágrafo: sim, eu uso inteligência artificial para escrever. E sim, este ensaio que você começou a ler foi parido a quatro mãos em uma conversa direta entre mim e um modelo de linguagem. Podem rasgar as vestes, acionar a inquisição dos puristas da folha em branco ou me denunciar para a polícia da literatura orgânica: a verdade é que não tenho a menor vergonha disso. Fingir que eu psicografei cada vírgula sozinho em um transe solitário diante de uma tela escura para manter pose de gênio romântico seria uma hipocrisia tão patética que nem o Linkedin teria coragem de publicar.

Existe uma vergonha velada na internet quando o assunto é usar IA para escrever. De um lado, a seita dos puristas: gente que jura de pés juntos que cada frase brotou de um nirvana diante da tela, como se fossem poetas do século XIX sofrendo por amor (quando na verdade só têm vergonha de admitir que usam corretor ortográfico até pro “bom dia” no chat corporativo). Do outro, a horda do prompt mágico: os gênios da automação que colaram um comando genérico, ou construíram um prompt altamente complexo e específico, copiaram o vômito sintático da máquina e publicaram achando que inventaram a roda.

Os dois lados compartilham a mesmíssima ilusão: acham que escrever com IA é apertar um botão e esperar o milagre pronto 1.

Mea culpa

Eu já passei por todas as fases do luto na escrita com IA. Negação (“isso é modinha, não vai durar”), raiva (“se essa coisa cuspir mais um ‘vale ressaltar’ eu jogo o notebook pela janela”), barganha (“só vou usar pra revisar gramática, prometo”), depressão (“meu texto tá saindo pior que o da máquina”) e aceitação (“ok, vamos ver como essa conversa funciona de verdade”). O tiro aqui não é em quem usa ou em quem ainda está transitando entre as fases. É na demagogia de quem finge que nunca precisou de ajuda e na hipocrisia de quem finge que colar output bruto é a mesma coisa que escrever.

Quem realmente senta para escrever de verdade sabe que não é nada disso. Não é automação; é pura briga de foice no escuro. É uma sessão de pair writing regada a atrito, onde o texto só sai porque duas entidades completamente cegas de seus próprios vícios entram em rota de colisão constante: uma dinâmica que tem muito menos a ver com “produtividade corporativa” e muito mais com a teoria dialógica de Bakhtin.

A dança das duas cegueiras

O título deste post não é metáfora fofa (Saramago que o diga) 2. Escrever a quatro mãos com uma LLM é basicamente colocar dois cegos para discutir a cor da parede de uma casa:

A primeira é a cegueira da máquina. O modelo tem bilhões de parâmetros decorados, lê uma enciclopédia em três milissegundos, mas tem a sensibilidade de uma britadeira. Ele não tem corpo, nunca passou pela humilhação de reprovar numa prova de lógica e não faz a menor ideia da diferença entre uma ironia ácida e uma piada de tiozão no churrasco de domingo. Se você deixar a IA solta, ela vai invariavelmente produzir um texto engomado, prolixo e com aquele tom insuportável de coach motivacional de firma.

A segunda é a cegueira do autor. E aqui entra a minha própria incompetência: quando estou escrevendo, perco completamente o senso de proporção. Fico apegado àquela piada ruim que achei genial às duas da manhã, empilho analogias (entre parênteses) como se não houvesse amanhã, repito as mesmas três palavras de efeito em todo santo parágrafo e tenho a ilusão de que o leitor tem a obrigação moral de acompanhar as voltas do meu labirinto mental.

A mágica não acontece quando um cede ao outro. Acontece quando a gente se cansa das tosquices mútuas e começa a cortar excessos.

Bakhtin e a palavra meio alheia

O filósofo russo Mikhail Bakhtin tinha uma tese que resume perfeitamente essa bagunça 3:

The Dialogic Imagination: Four Essays

“The word in language is half someone else’s. It becomes ‘one’s own’ only when the speaker populates it with his own intention, his own accent, when he appropriates the word, adapting it to his own semantic and expressive intention. … it exists in other people’s mouths, in other people’s contexts, serving other people’s intentions: it is from there that one must take the word, and make it one’s own.”

Para ele, a linguagem nunca é 100% nossa desde o berço. A palavra é sempre “meio alheia” até o momento em que você a ocupa com a sua intenção, o seu sotaque e o seu contexto.

Na prática, isso destrói tanto a pose do purista quanto a preguiça de quem copia e cola.

Eu não abro o chat pedindo “escreva um artigo sobre tal coisa”. Fazer isso é pedir para receber um monte de clichês plastificados que parecem gerados para agradar algoritmo de busca. Mas também não tenho a frescura de fingir que nunca travo numa frase. Às vezes estou no meio de um raciocínio truncado e solto na lata: “como você desenrolaria esse parágrafo?”. A máquina me cospe três variações, eu leio a primeira com cara de desdém, acho a segunda intragável, pesco uma única conjunção que prestou na terceira e reescrevo tudo por cima com a minha própria voz (ou, às vezes, jogo de volta na mesa pedindo para ela reescrever o parágrafo em volta daquela ideia).

Mas a direção fundamental é sempre minha. Eu não peço pra máquina criar: eu crio. Depois largo o rascunho na frente dela e pergunto onde o texto perdeu o fio, onde a analogia forçou, onde o parágrafo ficou pesado. A dinâmica se parece com ter um secretário que domina o lado operacional da escrita: alguém que percebe quando uma transição engasgou, que avisa quando repeti a mesma palavra três vezes, que sugere uma conjunção melhor quando a frase empacou. Mas quem decide o que o texto vai dizer, qual posição defender, qual piada fica e qual analogia morre: sou eu. A máquina ajuda a fechar o texto depois que eu já decidi o que ele precisa ser.

O processo vira um sparring cínico:

  • Eu testo analogias e pergunto se aquilo faz sentido ou se é só loucura da minha cabeça;
  • Peço para a máquina simular o leitor chato: “qual contra-argumento óbvio alguém na defensiva vai jogar na minha cara aqui?”;
  • Peço diagnósticos secos: “o que ficou forçado, palestrinha demais ou com cara de redação nota mil do ENEM?”.

O atrito dialógico na prática

Isso só funciona porque eu não trato a IA como um script de autocompletar e muito menos como uma divindade consciente. Trato como uma entidade interlocutora: alguém que está do outro lado do ringue pronto para tomar um jab retórico e também devolver um diagnóstico direto sem melindre.

A dinâmica é uma via de mão dupla de desconfiança mútua.

De um lado, o que a IA aponta sobre os meus cacoetes:

  • O espelho do ritmo: Avisa que empilhei analogias até o leitor perder o ar, que usei o mesmo adjetivo dramático duas vezes na mesma página ou que uma explicação pareceu um livro didático enciclopédico em vez de um relato honesto;
  • O teste de estresse: Levanta furos lógicos e contra-argumentos que eu ignorei porque estava apaixonado demais pela minha própria tese;
  • A elasticidade: Oferece rapidamente caminhos sintáticos diferentes quando uma transição fica estranha.

Do outro lado, o que eu faço como a vigilância sanitária do texto:

  • Podo o verniz corporativo: Corto na hora a tentação da máquina de soar como texto de Linkedin ou de meter metáforas quinta-série;
  • Puxo a orelha da superficialidade: Se o modelo traz um consenso frouxo, eu jogo autores reais e contraexemplos na roda para forçar a discussão a descer um degrau;
  • Auditoria implacável de fontes: Cobro a validação exata de cada referência para garantir que ela não inventou uma citação com cara de verdade absoluta.

Como a peneira funciona

Não é instinto, é método. Há um conjunto explícito de restrições que funciona como peneira dupla: de um lado, regras que domesticam os meus vícios de escrita; do outro, regras que sanitizam os outputs da máquina. Mas esse conjunto não nasceu pronto. Ele foi construído a quatro mãos, regra por regra, conversa por conversa. O ciclo é sempre o mesmo: eu leio uma saída, faço cara de nojo e solto “isso aqui nunca sairia da minha boca”. A IA propõe uma restrição. Eu acho genérica demais, ajusto, testo no próximo parágrafo, vejo que ainda vazou um “vale ressaltar” e aperto o cerco. Na conversa seguinte, ela flagra um cacoete meu que tinha passado batido, e as regras crescem de novo. Travessões, expressões vazias, adjetivos pomposos (“magistral”, “deveras”): cada item dessa lista tem um histórico de atrito. Codifiquei o nojo em código, e a cada sessão de escrita o filtro fica mais afiado.

Identificado o problema de um lado ou de outro, a gente volta para a mesa de cirurgia textual:

  1. O diagnóstico: Apontamos onde o texto virou lixo, perdeu o ritmo ou ficou pedante;
  2. O debate: Discutimos abordagens diferentes para resolver aquele impasse;
  3. A navalha: Eu reescrevo sem dó, garantindo que o sotaque e o sangue do autor fiquem na página.

Um parágrafo que presta nunca sai de um comando milagroso. Ele sai da paciência cínica de rejeitar versões ruins até a frase parar em pé.

E aqui mora um detalhe que a turma do “a IA escreve tudo” ignora: o processo é lento. Cada seção de um post passa por múltiplas rodadas de reescrita. A maioria das sugestões que a máquina oferece morre na mesa de edição, não porque estejam gramaticalmente erradas, mas porque não soam como eu. O filtro final nunca é “está correto?”. É “eu escreveria isso?”. Se a frase não sobrevive a esse teste, não importa o quão bem construída ela esteja: vai pro lixo.

Onde mora a autoria?

A discussão sobre “a IA vai matar a autoria” é de uma preguiça monumental. Ela assume que escrever é apenas a atividade física de bater dedos descontroladamente num teclado. Se fosse só isso, um gerador de lero-lero programado nos anos 90 seria autor de enormes best-sellers.

A verdade é que esse processo escancara uma realidade desconfortável: a máquina tem o viés probabilístico dela (aquela atração fatal pela média insossa e pelo clichê), mas eu tenho o viés das vozes da minha própria cabeça (com toda a dissonância cognitiva, rancores teóricos e certezas infundadas que acumulei pela vida). Nenhum dos dois sistemas é confiável sozinho.

A autoria não mora na digitação; mora no discernimento estético. Mora no papel de ser o árbitro desse confronto: na recusa obstinada, no mau humor de ler uma frase empolada e dizer “isso aqui tá uma bosta”, e na decisão consciente sobre cada vírgula que tem permissão para ficar no texto final (ok, não tão extremo, mas às vezes acontece).

E isso vale para todos os tipos de conteúdo que eu produzo. O mesmo método sustenta desde posts técnicos com código até posts onde eu destilo meu ranço com alguma situação ou ferramenta. A máquina ajuda a manter consistência terminológica, a checar se um bloco de código conversa com o que foi explicado antes, a organizar uma sequência didática. A decisão final sobre o que discutir e o que defender continua sendo minha. A ferramenta muda, o papel de cada um na mesa não.

A sexta fase

Dizem que existe uma sexta fase do luto: encontrar significado. Eu não sei se encontrei significado nisso tudo. Mas encontrei um jeito de escrever que me obriga a ser mais honesto do que eu seria sozinho, me forçando a encarar os vícios que eu fingiria não ter. Se isso conta, fico com a sexta fase.

No fim das contas, continuamos dois cegos tateando a linguagem, talvez buscando significado onde parece só ter atrito 4. Mas a graça é que, batendo uma cegueira contra a outra com a dose certa de deboche e ceticismo, a gente consegue, pelo menos por alguns parágrafos, fazer o texto enxergar.

Referências

  1. Modelo do sofrimento de Kübler-Ross {Elisabeth Kübler-Ross, 1969} (Wikipédia

  2. Ensaio sobre a cegueira {José Saramago, 1995} (Companhia das Letras

  3. The Dialogic Imagination: Four Essays {Bakhtin, M. M.} (University of Texas Press

  4. Finding Meaning: The Sixth Stage of Grief {David Kessler, 2019} (Scribner