O teorema da caneta BIC
Sobre a incrível arte de defender a própria guilhotina
Existe uma regra não escrita sobre a sobrevivência em repartição pública: nunca abra o grupo de WhatsApp do trabalho antes da segunda xícara de café. Se você cometer essa imprudência com o estômago vazio, corre o risco sério de descobrir que o seu colega de sala encontrou uma justificativa no livro de Samuel para passar pano em escândalo financeiro antes mesmo das nove da manhã.
A manhã começou na lentidão habitual de uma instituição federal.
Entre conferir se os sistemas corporativos decidiram funcionar, tentar bater o ponto eletrônico sem receber uma mensagem críptica de erro e descobrir quem foi a alma sebosa que deixou o bule de café com um dedo de borra fria, o expediente tentava se equilibrar na sua rotina anestesiada. Era uma sexta-feira típica.
Até que alguém compartilhou no grupo uma reportagem sobre operações policiais investigando fraudes bilionárias, desvios em fundos de pensão de aposentados e a promiscuidade explícita entre figurões de terno, banqueiros e a bancada mais reacionária do Congresso.
Um assunto indigesto, mas corriqueiro.
O tipo de notícia que a maioria lê em silêncio, balança a cabeça com o cinismo resignado de quem já viu esse mesmo enredo se repetir cinquenta vezes e volta para as suas planilhas. Mas o grupo da repartição não é composto apenas por almas resignadas. Há sempre aquele indivíduo que enxerga em cada notícia desconfortável uma afronta pessoal à sua visão de mundo.
Foi aí que Josafá decidiu entrar em cena.
Admissão do próprio veneno
Apelar para esse argumentum ad verecundiam é uma covardia retórica? É, com certeza. Mas se é pra fazer exposed, que comece pelo meu: não tem ninguém pleno ou iluminado aqui não. Eu sou mesquinho, rancoroso e desci do salto com gosto. A paciência foi com Jezuis antes das nove da manhã, o ranço bateu no teto e resolvi canalizar a minha "vilã de novela" interior, porque eu sou ser humano e vocês não têm nada a ver com isso.
Para não dar nome ao coleguinha, resolvi batizá-lo de Josafá simplesmente porque sim. Tem aquela sonoridade bíblica empoeirada do Antigo Testamento, carrega um peso de cartório do século retrasado e casa sob medida com a solenidade arcaica com que ele tenta justificar o injustificável.
A figura é uma entidade sociológica fascinante.
Ele jura de pés juntos que não tem partido, que abomina a política e que suas opiniões brotam de uma razão límpida e desinteressada. Mas basta qualquer manchete arranhar a lataria da extrema-direita que o alarme interno do homem dispara como sirene de quartel.
Em menos de três minutos, ele já estava na arena digital: dedos frenéticos no teclado, pontuação errática, caixa alta para simular autoridade moral e aquele tom condescendente de quem se julga o último adulto sóbrio numa creche de funcionários públicos iludidos.
A teologia freestyle de Josafá e o aviso ignorado de Samuel
O primeiro número circense do colega foi nos brindar com um tratado improvisado sobre regimes políticos no Antigo Testamento.
Diante da crítica de colegas sobre a escalada teocrática que sequestra o debate público no país, em que clérigos milionários ditam votações orçamentárias e impõem agendas medievais, o homem não vacilou. Soltou no grupo que governos teocráticos, na verdade, não existem.
A tese era de uma audácia estarrecedora: para que houvesse uma teocracia, o próprio Deus precisaria estar sentado na cadeira presidencial assinando atos no Diário Oficial.
Como isso só teria ocorrido com o povo hebreu no deserto até o profeta Samuel ungir o Rei Saul há mais de três mil anos, a conclusão dele foi direta: qualquer líder religioso ocupando ministérios, operando emendas secretas ou usando púlpito de igreja como comício partidário é apenas um cidadão exercendo sua legítima vocação civil.
O delírio semântico foi tamanho que uma colega do setor não aguentou e jogou no chat a captura de tela de uma busca no Google: o significado literal de teocracia segundo o dicionário, com o texto grifado para não deixar margem a dúvidas.
O verbete explicava com a paciência didática que faltava ao expediente: sistema de governo em que o poder político é exercido por líderes religiosos, unindo a autoridade espiritual à do Estado. E trazia logo abaixo a constatação óbvia que desmontava a tese do iluminado em duas linhas: na prática, como uma divindade não governa diretamente, o poder fica nas mãos de sacerdotes, clérigos ou líderes que se dizem representantes de Deus na Terra.
Bastou uma consulta elementar de três segundos para implodir o castelo de cartas.
Mas para quem opera na trincheira do alinhamento cego, nem o dicionário tem autoridade. O sujeito simplesmente ignorou a definição formal da língua portuguesa. Pouco importava se colegas lembravam que o operador financeiro do esquema sob investigação era frequentador assíduo dos mesmos templos reluzentes que vendem prosperidade aos fiéis e sangram fundos de pensão de velhinhos; para o nosso profeta de repartição, admitir o fato significaria admitir a hipocrisia da própria bancada de estimação.
Diante de formulações desse calibre, é impossível não lembrar de Harry Frankfurt e de seu clássico ensaio sobre a natureza do bullshit 1. Frankfurt estabelece uma distinção preciosa entre a mentira deliberada e a conversa fiada institucionalizada.
O mentiroso conhece a verdade e se esforça para escondê-la; ele respeita, pelo menos no plano conceitual, a autoridade dos fatos. O propagador de bullshit, por outro lado, opera num vácuo de total indiferença factual. Ele não está preocupado se sua afirmação é verdadeira ou falsa: sua única meta é produzir um ruído sonoro conveniente que o tire da defensiva e proteja sua imagem perante o público.
Essa ginástica hermenêutica é o suprassumo do bullshit. Ele inventou uma definição absurda de teocracia para neutralizar o perigo visível de um Estado confessional paralelo.
Mas a ironia maior foi o coleguinha ter evocado o livro de Samuel confiando que ninguém no grupo se daria ao trabalho de abrir o texto bíblico.
Se tivesse lido o oitavo capítulo do primeiro livro de Samuel, teria descoberto que a transição para a monarquia de Saul foi descrita nas escrituras como uma desgraça consentida 2. Quando os anciãos de Israel imploraram por um monarca para "serem como todas as outras nações", a versão arcaica de clamar por um salvador da pátria autoritário, Deus ordenou que o profeta Samuel advertisse o povo com todas as letras sobre o que um governante forte faria com eles.
Samuel avisou que o rei tomaria os filhos do povo para comandar seus carros de guerra, confiscaria as filhas para serem criadas do palácio, desapropriaria os melhores campos, vinhas e olivais para enriquecer seus asseclas e cobraria um dízimo sobre as sementes para sustentar a corte dos seus oficiais.
O texto bíblico é a dissecação mais violenta da natureza predatória de um autocrata na literatura antiga.
Ele citou o Rei Saul como álibi teológico sem perceber que a Bíblia estava descrevendo com séculos de antecedência o perfil exato do projeto político que venera: a pilhagem do Estado em benefício de uma oligarquia armada.
Entra Feuerbach, sai Bela Gil
Quando encurralado pelas próprias contradições, o roteiro do mártir de repartição nunca falha: ele veste o manto do injustiçado, acusa os colegas de intolerância e solta no grupo que os outros é que estão de "mimimi" e que ninguém ali sabe dialogar.
É a clássica inversão de papéis do debatedor de aplicativo: passa a manhã inteira relativizando roubo de aposentadorias, mas na primeira contestação firme se faz de vítima da agressividade alheia.
A minha reação imediata não foi de indignação, foi de puro, cristalino e destilado deboche.
A vontade real era soltar uma daquelas frases que encerram qualquer diálogo, do tipo perguntar se o sujeito estava digitando com os cascos ou se alguém precisava esconder o vermífugo do rebanho. Mas eu tenho desconfiômetro, amor à minha paz de espírito e apego suficiente ao meu contracheque para não dar munição de graça a quem adora bancar o perseguido. O deboche precisava caber dentro de uma margem segura.
A saída foi recorrer à mais refinada diplomacia visual da internet: soltei uma figurinha da cantora Sabrina Carpenter com a mão no fone de ouvido e a legenda direta que dispensa qualquer contestação: se for chorar, manda áudio.
Há momentos na vida corporativa em que nenhuma trégua formal é capaz de traduzir a preguiça cósmica que uma lamúria dessas provoca. A figurinha operou o milagre da elegância: desarmou o coitadismo do sujeito sem deixar rastro para melindres burocráticos.
Mas a provocação teológica continuava no ar.
Assistir à fé ser domesticada e torcida como pano de chão para blindar esquema de colarinho branco em plena sexta-feira de manhã é uma provação física. O cinismo era tamanho que precisei quebrar de vez a quarta parede do expediente e soltar no chat a máxima com a qual Ludwig Feuerbach implodiu a teologia conservadora no século XIX: não foi Deus quem criou o homem à sua imagem e semelhança; foi o homem quem esculpiu Deus à sua própria imagem, projetando na divindade suas próprias fraquezas, seus preconceitos, seus interesses econômicos e seu pavor da liberdade 3.
Ou, parafraseando a apresentadora Bela Gil naquele clássico meme sobre substituições cotidianas: você pode substituir a palavra "Deus" por "Ninguém" em praticamente qualquer frase que o sentido continua rigorosamente intacto.
Quando o colega invoca a Bíblia para justificar a promiscuidade entre religião e corrupção no poder, a mecânica é rigorosamente essa. Ele não está prestando contas a uma entidade transcendental. Está conversando com o próprio eco e reverenciando suas próprias obsessões ideológicas.
O deus dessa turma é um burocrata reacionário que odeia direitos sociais, abençoa o enriquecimento de pastores inescrupulosos e se preocupa muito mais com a moral alheia do que com a justiça distributiva.
A hipocrisia ganha contornos trágicos quando confrontada com a tradição profética das próprias escrituras judaico-cristãs.
O profeta Amós registrou a aversão divina contra quem usa a liturgia como biombo para esconder a podridão social: "Odeio, desprezo as vossas festas religiosas, e não suporto as vossas assembleias solenes… Afastai de mim o ruído dos vossos cânticos; corra, porém, a justiça como as águas, e a retidão como um ribeiro perene!" 4.
No mesmo tom, o profeta Isaías pronunciou a sentença definitiva sobre a politicagem que assalta os desprotegidos: "Ai daqueles que fazem leis injustas e decretos de opressão para privar os pobres dos seus direitos e negar justiça aos aflitos do meu povo, fazendo das viúvas a sua presa e roubando os órfãos!" 5.
Roubar fundo de previdência de velhinho aposentado e esmagar a renda de quem trabalhou a vida inteira é precisamente o que Isaías condenou sob o fogo profético.
Não há um milímetro de consonância entre o texto bíblico e o projeto de desmonte social que seduz o rebanho. Mas o homem prefere ignorar Isaías e Amós. Encarar os profetas exigiria encarar a própria cumplicidade.
O teorema da caneta BIC e os fariseus do mosquito
Encurralado pelas contradições teológicas e pelos dados factuais sobre o escândalo financeiro do momento, o coleguinha recorreu ao último refúgio de quem perdeu o chão argumentativo: a falsa equivalência moral universal.
Ele digitou no grupo, com o ar compungido de quem distribui sabedoria do alto de uma montanha moral, a seguinte pérola: "só queria saber quem aqui nunca cometeu nenhum ato de corrupção… até levar uma caneta fornecida pela instituição pra casa ou imprimir uma folha pessoal na impressora do setor tá valendo. Dá pra juntar todo mundo no mesmo saco".
É o que passei a chamar de o Teorema da Caneta BIC.
Saboreie a monstruosidade dessa lógica por alguns instantes.
Na cabeça do cidadão, desviar centenas de milhões de reais de pensões públicas em conluio com banqueiros e esquecer uma caneta esferográfica de cinquenta centavos no fundo da mochila pertencem rigorosamente à mesma gaveta penal e ética. Imprimir uma folha de papel com um comprovante de residência exigido pelo próprio órgão empregador faz de você um criminoso com a mesma gravidade moral de quem lava dinheiro de milícia em contas no exterior.
Jesus de Nazaré, ao confrontar os religiosos hipócritas do seu tempo no Evangelho de Mateus, cravou uma imagem que desmonta essa falácia com quase dois mil anos de antecedência: "Guias cegos! Coais um mosquito e engolis um camelo!" 6.
O colega e seus semelhantes são os coadores de mosquitos do serviço público.
Eles passam o dia fiscalizando se alguém levou o clipe de papel para prender o contracheque, mas engolem, com um sorriso de aprovação e sem engasgar, o camelo inteiro da pilhagem orçamentária patrocinada por seus ídolos políticos.
Peter Sloterdijk, em sua obra monumental sobre a razão cínica, descreve com exatidão esse estado de espírito da modernidade 7. O cinismo contemporâneo não é a ingenuidade do ignorante que não sabe o que faz; é a postura daquele que sabe perfeitamente o que faz e, mesmo assim, continua fazendo.
A falsa equivalência não nasce de um erro honesto de proporção. Ela é um mecanismo psicológico deliberado para dissolver a responsabilidade: se todo mundo é corrupto porque todo mundo já pegou uma caneta emprestada, então ninguém é culpado por nada. A corrupção sistêmica é normalizada, o grande larápio é anistiado no imaginário coletivo e o debate público é nivelado por baixo num pântano de cinismo generalizado.
A sordidez desse argumento se torna ainda mais berrante quando olhamos para a realidade material das instituições públicas brasileiras.
Nenhum trabalhador dessas casas enriquece às custas do Estado.
O fluxo cotidiano é o exato inverso: quem atua na linha de frente do serviço público frequentemente tira dinheiro do próprio contracheque para comprar pó de café, açúcar, régua de tomadas, cabo de rede, fita adesiva e canetas, simplesmente porque os sucessivos cortes orçamentários evaporaram as verbas de custeio mais básicas.
O trabalhador subsidia o funcionamento precário da máquina pública para não deixar a população desassistida. E, ao final da jornada, ainda tem que engolir o colega de setor insinuando que ele é sócio de quadrilha financeira porque levou para casa a caneta que muitas vezes ele mesmo comprou na papelaria da esquina.
A servidão voluntária e a Síndrome de Estocolmo funcional
Chegamos então ao nó górdio da questão: por que tanta gente se comporta assim?
O que leva um servidor público, cuja estabilidade, subsistência e plano de aposentadoria dependem integralmente da higidez do Estado e da força do trabalho coletivo, a aplaudir com tanto fervor os coveiros da sua própria carreira?
Em 1548, com apenas dezoito anos de idade, o jovem francês Étienne de La Boétie formulou a pergunta que ecoa através dos séculos: qual é o vício misterioso que faz com que milhares de indivíduos suportem um tirano que não possui outro poder além daquele que eles mesmos lhe conferem 8?
La Boétie chamou essa aberração de servidão voluntária. Os povos, escreveu ele, deixam-se engolir e oprimir porque se acostumaram a lamber as mãos que os acorrentam. Eles próprios fornecem as armas ao tirano e sustentam o capataz que depois usará o açoite sobre suas costas.
A figura é a encarnação burocrática da servidão voluntária descrita por La Boétie.
Ele é vítima, sim, mas de uma Síndrome de Estocolmo institucional tão arraigada que chega a ser patológica.
Quando o projeto político da extrema-direita sobe ao palanque prometendo congelar salários por quase uma década, extinguir adicionais de carreira, sucatear prédios públicos, terceirizar serviços essenciais e tratar o funcionalismo como um antro de "parasitas", o coração do servidor patriota palpita de emoção.
Ele admira a truculência do capataz. Enxerga no corte de direitos alheios uma demonstração de força, sem perceber que o pescoço que repousa na lâmina da guilhotina é o seu próprio.
O escárnio atinge o ápice na contradição prática do dia a dia.
Essa trupe passou mais de cem dias assistindo seus colegas enfrentarem piquetes de greve debaixo de sol escaldante para arrancar negociações salariais e reestruturar a carreira. Eles nunca foram a uma assembleia, nunca seguraram uma faixa, nunca perderam o sono com a possibilidade de corte de ponto. Ao contrário: murmuravam pelos cantos que a paralisação era baderna de desocupados.
No entanto, quando os acordos foram firmados e os novos direitos foram homologados, quem foram os primeiros a abrir processo eletrônico para solicitar os adicionais de qualificação por competência?
Quem correu para cadastrar plano de trabalho e usufruir do regime de teletrabalho flexível?
Quem olhou o contracheque com o reajuste nos auxílios e comemorou em silêncio a aceleração dos padrões de vencimento?
Eles mesmos.
Eles usufruem avidamente de cada centavo arrancado pela luta coletiva dos trabalhadores, mas votam com orgulho no carrasco que prometeu queimar a CLT e aniquilar o serviço público. Eles querem o socialismo dos benefícios e o anarcocapitalismo do WhatsApp.
Paulo Freire decifrou esse mecanismo psíquico com a precisão dos grandes mestres: quando a formação crítica é amputada, o oprimido não sonha em libertar a si mesmo e aos seus pares; seu sonho secreto é se transformar no opressor 9. O oprimido hospeda a ideologia do dominador dentro da sua própria mente. Ele passa a odiar os seus semelhantes e a enxergar a si mesmo pelos olhos de quem o despreza.
Theodor Adorno e os pesquisadores de Frankfurt aprofundaram essa ferida ao mapearem a chamada personalidade autoritária 10.
O indivíduo autoritário é marcado por uma covardia estrutural: ele curva a espinha e beija o anel de quem está acima dele na hierarquia social, mas descarrega todo o seu ressentimento e fúria sobre quem está abaixo ou ao seu lado. A pessoa não tem coragem de enfrentar os grandes potentados que fraudam o sistema financeiro e expropriam a riqueza da nação; sua fúria é reservada para a caneta BIC do colega de mesa e para o sindicato que luta pelo seu próprio salário.
O simulacro de independência e o abismo cognitivo
O aspecto mais melancólico desse espetáculo é a capa de isenção sob a qual essa turma se esconde.
O bordão do "não tenho político de estimação" virou o salvo-conduto da covardia retórica. É a blindagem perfeita: permite atacar sem trégua todas as conquistas do campo progressista enquanto se mantém uma condescendência infinita com a barbárie, a milícia e a destruição ambiental.
Se questionado, o sujeito levanta as mãos fingindo santidade: "ora, eu cobro de todos igualmente".
Não cobra. A indignação do coleguinha tem endereço fixo, CEP e lado ideológico.
E quando a máscara cai, vem a chantagem moral preferida do extremismo disfarçado de virtude: a exigência de que a democracia seja infinitamente tolerante com quem trabalha dia e noite para destruí-la. O cidadão apela para a liberdade de expressão como quem saca um salvo-conduto para propagar desinformação e violência, exigindo que qualquer contestação seja recebida com tapete vermelho em nome do "respeito à divergência".
É a armadilha clássica que Karl Popper batizou de o paradoxo da tolerância em 1945 11.
A tese de Popper é cristalina e não admite relativismos: a tolerância ilimitada leva necessariamente ao desaparecimento da tolerância. Se uma sociedade aberta for complacente com quem prega a intolerância, se não estiver disposta a defender as instituições contra o assalto de quem rejeita o pacto democrático, os tolerantes serão destruídos, e a tolerância desaparecerá com eles.
Ele quer a garantia da imunidade diplomática da democracia para poder roer as suas vigas de sustentação.
Ele quer o direito irrestrito de defender a barbárie, o golpismo e o desmonte do bem comum no grupo da firma, mas exige que qualquer reação contrária seja recebida com flores e reverência. Não há pluralidade no autoritarismo. A exigência de civilidade vinda de quem apoia a truculência não é um apelo democrático: é apenas a tática do predador que exige que os outros respeitem as regras enquanto ele as rasga em praça pública.
Hannah Arendt, ao dissecar a gênese do totalitarismo moderno, alertou que o sujeito ideal para a dominação autoritária não é o fascista convicto ou o militante fanático, mas o homem comum para quem a distinção entre fato e ficção, entre verdade e mentira, simplesmente deixou de importar 12.
Quando a realidade material é substituída pela narrativa tribal, o tecido do senso comum se rompe. Fatos perdem a relevância. Dados estatísticos são descartados como conspirações. A realidade concreta é substituída pelo que Jean Baudrillard chamou de simulacro: uma representação hiper-real construída por algoritmos e propaganda que se descola totalmente do mundo físico 13.
Essa mente habita o simulacro.
Para ele, as evidências de esquemas financeiros envolvendo sua turma política não passam de perseguição injusta, enquanto qualquer boato apócrifo recebido em grupos fechados é tratado como revelação divina. Não há ponte de diálogo com quem abandonou o princípio da realidade em favor de uma alucinação digital compartilhada.
O canário na mina de carvão
Por volta das dez da manhã, o grupo de WhatsApp silenciou.
Após o confronto sobre Feuerbach, o Rei Saul e a fábula da caneta BIC, o alecrim dourado, que nasceu sem ser semeado, aplicou uma manobra de saída à francesa. Soltou um evasivo "bom, vou trabalhar porque preciso produzir, ao contrário de uns e outros", colocou um emoji de joinha e desconectou.
O expediente então logo voltou à sua lentidão cinzenta.
A tentação imediata seria reduzir todo esse episódio a uma anedota de escritório, mais um causinho hilário de repartição para contar numa mesa de bar. Mas a verdade é infinitamente mais sombria.
O funcionalismo público federal, com toda a sua estabilidade e acesso privilegiado ao conhecimento, não é uma bolha desconectada da realidade nacional. Pelo contrário: ele funciona como um microcosmo privilegiado da fratura moral e cognitiva que está apodrecendo a sociedade brasileira por dentro.
O canário na mina
Nas antigas minas de carvão britânicas, os mineradores desciam às galerias subterrâneas carregando um canário em uma pequena gaiola de ferro. Por ter um sistema respiratório minúsculo e ultra-sensível, o pássaro detectava a presença invisível do monóxido de carbono muito antes dos pulmões humanos. Quando o canário parava de cantar e tombava na gaiola, os homens sabiam que o ar havia se tornado veneno e que a fuga imediata era a única chance de sobrevivência.
A universidade pública e as instituições de pensamento crítico deveriam ser o ambiente mais protegido contra a asfixia da razão. Aqui, em tese, as pessoas convivem com bibliotecas, métodos científicos, debate filosófico e evidências empíricas. Se dentro deste espaço um trabalhador instruído é capaz de justificar a pilhagem do seu país com versículos descontextualizados, igualar o roubo de bilhões a uma caneta esferográfica e aplaudir com paixão o carrasco que prometeu ceifar o seu próprio sustento, então o ar da mina já acabou. O canário não está apenas silenciado: ele já caiu estatelado no chão da gaiola.
Se os indivíduos que deveriam guardar o pensamento crítico se tornaram reféns voluntários da servidão e do cinismo, o que resta para o restante de um país bombardeado vinte e quatro horas por dia por algoritmos de ódio e púlpitos de extorsão?
O debate no WhatsApp não foi um desentendimento passageiro entre colegas de setor. Foi o sintoma microscópico de um país que perdeu a vergonha do absurdo, que trocou a solidariedade de classe pelo fetiche do chicote e que continua cavando o próprio abismo, convicto de que a culpa pela escuridão é da caneta que alguém esqueceu no bolso.
Referências
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Sobre a verdade e a mentira: On Bullshit {Harry G. Frankfurt, 2005} (Amazon) ↩
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A Bíblia Sagrada: Antigo Testamento {1 Samuel 8:1-22} (Desciclopédia) ↩
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A Essência do Cristianismo {Ludwig Feuerbach, 1841} (Amazon) ↩
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A Bíblia Sagrada: Livro do Profeta Amós {Amós 5:21-24} (Desciclopédia) ↩
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A Bíblia Sagrada: Livro do Profeta Isaías {Isaías 10:1-2} (Desciclopédia) ↩
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A Bíblia Sagrada: Evangelho de Mateus {Mateus 23:23-24} (Desciclopédia) ↩
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Discurso sobre a Servidão Voluntária {Étienne de La Boétie, 1576} (Amazon) ↩
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Estudos sobre a Personalidade Autoritária {Theodor W. Adorno, 1950} (Amazon) ↩
-
A Sociedade Aberta e Seus Inimigos {Karl R. Popper, 1945} (Amazon) ↩
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